quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Machado,lona e alvejante...(VI)



Destino
 
Destino. Palavra cruel. Quando pensamos que nossa vida tomou um rumo definido, vem o maldito destino e nos passa uma rasteira, por vezes tão grande, que não conseguimos reunir forças para levantar. Pensei que iria ficar longos e eternos anos com Leila, foi paixão a primeira vista. Não me importava com o fato dela estar envolvida naquele assassinato na padaria, anos atrás, queria tê-la ao meu lado. O destino já tinha me esbofeteado antes, quando levou Camila, agora Leila. Mulher burra, idiota mesmo.
Quando fugimos de Santo Ângelo, estava realmente disposto a largar tudo, deixar de vez a polícia, morar em um lugar à beira mar. Mas a vadia tinha que ser loira. No meio do caminho, naquela noite, o pneu do carro furou. Parei no acostamento para trocar o pneu. Leila saiu do carro, não ouviu ou fez de conta que não ouviu quando disse para ficar no acostamento. A anta tinha que ver de perto como se trocava um pneu.
O caminhão não deixou muita coisa do seu corpo para que pudessem reconhecer. Foi instantâneo, sem freadas, sem gritos. Apenas aquele barulho de ossos sendo dilacerados. O caminhoneiro sequer parou, sequer desviou. Sumiu na noite tão rapidamente quanto surgiu. O mínimo que pude pensar foi que o filho da puta estava chapado de tanto rebite. Caralho, não pude dar uma mísera trepada com Leila. Ascendi um cigarro enquanto o puto do Elvis Costello tentava me torturar no rádio, com aquela voz dizendo “She, May be the face I can't forget. A trace of pleasure or regret. May be my treasure or the price I have to pay” Ela, pode ser o rosto que eu não consigo esquecer O caminho para o prazer ou para o desgosto. Pode ser meu tesouro ou o preço que eu tenho que pagar. Fodam-se, a Leila e o Elvis.
Olhei por instantes, de longe, aquela massa disforme sob a luz prateada do luar. Entrei no carro, desliguei o rádio e dei meia volta rumo à Santo Ângelo. Os planos haviam mudado. Meu telefone estava lotado de chamadas da Chefia. Não queria atender ninguém.
Apareci no QG três dias depois. Convenci a todos que havia sofrido um infarto, que estava hospitalizado e por isso não atendia ao telefone.
O chefe me chamou em seu gabinete. O que será que aquele baixinho enfadonho queria comigo?
- Senta aí. Como vai o coração?
- Tudo certo. Foi alarme falso. Na verdade, o médico me convenceu que era puro estresse.
- Tenho um trabalho especial para você. Algo que vai lhe render uma boa aposentadoria.
- Diga lá, chefe.
- Preciso de um braço direito, um homem de extrema confiança e com qualidades especiais.
- E que qualidades seriam estas, chefe?
- Suas qualidades.
Aquelas palavras me balançaram, por breves momentos. Como não havia mais nada além da minha própria vida para perder, topei fazer o serviço "sujo" para o Chefe de Polícia, meu chefe. Até o belo dia em que me chamou na sua casa, no meio da noite, para me passar mais um "serviço". Capturar o braço direito do maior traficante desde a queda do Fernandinho Beira Mar.
Butch. O balofo Butch. O inescrupuloso leitão do Butch. Sadam e Butch, dupla perfeita, o chefe do crime e o chefe da polícia, tomando uísque contrabandeado e fumando charutos paraguaios cubanos.
Logo que entrei dei de cara com aquela maleta preta ao lado da poltrona do meu chefe, que logo anunciou.
- É esse o homem que vai ter fazer feliz Butch.
- Quer uma bebida garoto? Sente-se. Aqui está a foto do cretino do Rui. O filho da puta está com algo que me pertence. Quero que me traga aquela maleta de volta e a cabeça do Rui. Pode ficar com o corpo. O dinheiro que ele levou não importa tanto. Quero a maleta, não esqueça. Cinqüenta por cento agora e quando voltar, o resto da grana que está ali é sua.
Não pensei duas vezes. Um cavalo encilhado não passa toda hora na sua frente. Descarreguei o revólver, três tiros para cada um.
Sinatra ainda cantava My Way quando deixei a casa e os cadáveres para trás.


Machado,lona e alvejante...(VII)
Última parada!

- Mãe, o moço da imobiliária está aqui.
O velho era tão míope que não notou que aquele enorme homem, com um improvável casaco de nylon azul em uma tarde de calor como aquela, um imundo pano de prato enrolado na mão, parado à sua porta, não era exatamente o estereótipo do corretor de imóveis.
Vaso ruim não quebra. A máxima de papai havia se concretizado. O velho depravado tinha razão. Quando Cale caiu como um saco de batatas a seu lado, apostou todas as fichas que também partiria para uma nada agradável viagem ao inferno, afinal tinha um buraco na lateral da barriga e só dois dedos inteiros na mão esquerda.
Após atirar em Cale, sabia que precisava sair dali. Procurar ajuda. Mas precisava estancar a hemorragia. Virou-se com dificuldade e com todas as limitações que a obesidade lhe impunha, notou que havia levado um tiro na transversal. A bala entrou, atravessou a espessa camada de gordura e saído na parte posterior, não atingindo nenhum órgão vital. Engatinhou até a gaveta do balcão da cozinha, arrancou-a espalhando inúmeras coisas pelo chão. Achou o que queria. Uma caixa de lenços umedecidos, álcool e cola Super Bond. Fez duas buchas e trincando os dentes, jogou o álcool, obstruiu os orificios causados pela bala. Em seguida, gastou toda a bisnaga da cola. Pronto. Lacrado. Ia ver no que daria. Oito comprimidos de analgésico e já estava em pé. Amarrou o pano de prato como um torniquete na mão ferida, pegou a arma de Cale e abriu uma fresta na porta para vislumbrar o corredor. Nada.
Estava tonto, a pressão havia baixado devido aos comprimidos. Cambaleando, saiu com a pistola em punho dentro do bolso do velho casaco.
A sorte parecia ajudar. Em frente, caminhões de bebida abasteciam o Gaúcho. Oktober. Bueno, dessa estava fora.
Desceu pela Bento Gonçalves e apertou a campainha da terceira casa.
- Vamos entrar, rapaz. O sol não está sendo amigo.
Caramba, tudo estava conspirando a favor. Imobiliária. Pois sim, seria o moço da imobiliária.
- Liguei para lá e me disseram que mandariam alguém mais a tardinha.
-Estava aqui perto e aproveitei.
-Ah! Sente-se ali. Mãe, traz um cafezinho.
A estreita poltrona praticamente o entalou e os pés de madeira rangiram ameaçadoramente.
-Bom, quero vender esta casa e comprar um apartamento, o pátio é muito grande e somos só eu,a patroa e uma neta..
- O senhor poderia me mostrar a escritura?-precisava ganhar tempo.
-Claro. Só um momento, vou buscar.
Putz. A cabeça estava confusa e não sabia o que fazer. Poderia fazer os velhos de reféns em caso de cerco. Mas a princípio, parecia que ninguém notou sua incursão ali. Então poderia pensar com mais calma.
Vovó trouxe o café e logo foi ajudar a achar a escritura. Menos mal. Visualizou uma chave de carro em cima de uma mesa. Amaldiçoou sua incompetência Nunca fora capaz de aprender a dirigir.
-Aqui está. Note que área construida é enorme, e bláblábláblá.
Era enervante. O casal de velhos começou uma explanação acerca da história, das dificuldades para construírem a casa. Olhou para o chão e notou um filete de sangue correndo no vinco entre as lajotas marrons. Droga, o ferimento estava vazando. Era questão de tempo para notarem. A campainha tocou. Era a polícia, subjetivou. A mão sobre o cabo da pistola, dentro do bolso suava muito. Olhou para o chão e viu um enorme gato persa cinza e com uma gravata borboleta de bolinhas amarelas a lamber com gosto o líquido escarlate. A sorte estava do seu lado, por mais incrível que parecesse. A conversa amigável do velho na sala era com alguém conhecido. Um vizinho talvez. Estavam a se dirigir até ali.
Levantou-se e buscou o banheiro. Era uma casa antiga, mas bem conservada. Ficava no fundo do corredor. As vozes foram ficando mais distantes. Se fosse a polícia, estava fodido. Nem reféns tinha mais. Olhou para a janela do banheiro. Nem pensar, era muito estreita. Porra, e agora? As tripas se retorciam dentro do enorme ventre. Precisava defecar. Sentou-se no vaso e começou a repensar toda a situação. Tinha realmente como escapar? Podia tirotear com a polícia, mas tinha pouca munição, além de ser burrrice. Não!De burro já havia a piranha da Leila. Estava cansado e a possibilidade de se entregar começava a ser simpática. Alguém bateu à porta. O velho perguntando se estava tudo bem. Claro, não podia estar melhor. Havia participado do assalto mais fracassado da história, foi baleado, se viu obrigado a matar o melhor amigo. Bom, era bom o velho a matraquear ali, sinal que não era a polícia. Ou seria blefe para desentocá-lo. Notou que o papel higiênico havia acabado. Apenas mais um detalhe. Teve vontade de rir. Lembrou da chave sobre a mesa. Iria viajar. Isso. Argentina. Como um tango dramático.
Ao abrir a porta já enfiou a pistola na cara do idoso, o cano da arma lançou o óculos fundo de garrafa ao chão, despedaçando-o.
- Quietinho, vovô. Quem estava aí?
O velho, muito pálido gaguejou:
- A vi-vizinha, disse que houve um assa-sinato no sobrado da esquina...
- Ela já foi?
- Si-sim...
-Olha só. Estou armado,sou perigoso e se andar na linha, o senhor,sua velha e o gato canibal não se machucam
- O que você quer?
- Vamos viajar.
-O quê?
- O senhor vai me levar até a Argentina, para qualquer efeito sou seu sobrinho.
-Meu De-us!
Levou o velho até a sala e anunciou a situação à velha, que parecia mais controlada.
-Peguem material de primeiros socorros. A senhora vai junto para refazer um curativo. E analgésicos também.
A operação durou dez minutos.
O velho falou.
-Sinto muito, não posso dirigir...
-Que porra está dizendo?
-Você quebrou meu óculos.
-Merda, merda! Que porra. Bem azar de vocês, já viveram muito mesmo...
A velha intercedeu radiante.
-Nada disso,filho. Eu dirijo.
Após, carregaram todo o material e quando chegou na garagem teve uma surpresa. Um flamejante Maverick V8, laranja e com o capô e o teto pretos. Inacreditável. Será que a velha seria capaz de conduzí-los até a Argentina. Teria que assaltar uns três postos de gasolina até chegar na fronteira, para saciar a sede do velho Ford.
Sentiu um forte cheiro de merda. Era dele mesmo. Entraram no veículo. A velha no volante, o míope no carona, o gato vampiro a se lamber olhando para o pano sujo atado na sua mão, ele no banco de trás, com a pistola em punho.
- Vamos vovó. Pé na tábua.
A primeira puxada do carro devia ter bebido uns três litros de combustível
Saíram da garagem. A velha manobrou a esquerda e roncando grosso o Mavericão entrou na Marquês, atraindo os olhares dos passantes.
Errou duas vezes as marchas e quando acertou, chapou o pé no acelerador fazendo a dianteira se erguer um pouco. O gato cravou as unhas no banco. A velocidade aumentava gradativamente.Olhou para trás.O velho sobrado e o Gaúcho ficavam rapidamente distantes. A velha manobrou novamente e entrou na Sete de Setembro, sem reduzir. Perdeu o controle, subiu a calçada em direção à porta envidraçada da Igreja que ocupava grande espaço na grade televisiva. Uma faixa pendurada acima da porta dizia "Entre e encontre a libertação!"

2 comentários:

Daniel Silva disse...

haja criatividade, hein! legal pra caramba. tem que escrever mais, cara.

abraço

Guilherme Sakuma disse...

Achei do caralho! Adoro esses contos loucos cara! Esses eu tenho vontade de ler...