segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A cidade que copiava



(I)


Um sombrero era o que eu precisava. O sol escaldante da Ciudad del Este era o que digamos abrasador. O aglomero de pessoas com sacolas de todos os tamanhos e espécies era algo de surreal. Minha camisa Hawaii-cheguei e meus óculos espelhados pediam um colar de flores,mas eu resisti à tentação. Pareceria Hannibal Lecter em algum de seus paraísos fugidios.
Eu não sentia falta de nada ali. Aprendi a conviver com a sujeira das ruas, mas com a nojeira das comidas não. Ligava diariamente para um restaurante de Foz que me mandava um rosbife de primeira linhagem. As putas podiam ser paraguaias mesmo. O problema maior era quando algumas começavam a fingir orgasmo. Era uma gritaria em dialeto guarani e acreditem, é muito broxante. Nada que uma boa bofetada nas ventas da vagaba não resolva. Putedo desgraçado. Aproveitam aqueles cochilos pós-foda para te levar a carteira embora. Peguei duas fazendo isso. Coitadas. O aprendizado pela dor. Eu também tinha passado por esse processo. Mas deixa isso para lá.
Comia muito chocolate. Era meu lanche da tarde, por vezes janta. As cervejas de litrão pelo menos eu tinha com facilidade. Havia um boteco que me lembrava aquelas tavernas mexicanas com um enorme sombrero no outdoor, daí minha idéia de cobrir a moleira. Geralmente nos finais das modorrentas e empoeiradas tardes eu sentava em uma mesa estrategicamente colocada de frente para o fluxo de pessoas e com as costas protegidas. Acendia um enorme charuto cubano colocava um Stones no meu player e fones nos ouvidos. As guarânias do som ambiente me deprimiam.
Eu sabia que não podia ficar completamente relaxado e que minha vida não valia um centavo. Não estava nem um pouquinho arrependido, afinal eu ainda estava com cento e vinte mil reais escondido e gastando na medida em que minhas ânsias consumistas e carnais pediam. Só que ás vezes imaginava o Butch, mais especificamente aquela balofa e suarenta cara no momento que abriu a maleta e viu um monte de jornal picado. Não queria estar na pele dos coitados que estavam juntos.
Eu estava exilado naquele paraíso do lixo há dois meses. Aluguei um apartamento no centro comercial da cidade, ou seja, na ante-sala do inferno. Procurei ir na contra-mão do pensamento dos meus perseguidores. Não imaginariam que eu me refugiasse em um lugar tão movimentado e ficaria tão exposto. Não. Um cara como eu não. Eu havia conquistado fama e respeito à custa de muita bala. Os pilantrinhas nunca se criaram comigo. Na minha função de cobrador do Butch, nada de fidalguia, não senhor. Muita dentadura rachada e nariz sangrento, afinal quem manda ser negador de conta. A merda é que o Butch emprestava dinheiro para a pior escória, desde prostitutas, essas geralmente iam pagando em mercadoria, até viciados. Estes na ânsia de conseguir a porcaria apareciam até com pedaços de dedos com anéis em ouro.
Para puta que pariu toda essa gente. Eu queria era curtir aquele dinheiro que apareceu fácil na minha mão. Butch, Butch, para quem quer ser "o patrão" como você mesmo se denominava, foi um erro imperdoável. Tratar com pouca consideração um ótimo limpa-trilhos como eu. Comi a tua mulher e limpei teu cofre enquanto se fazia de grande coisa em uma noitada com outros chefões. Serviço completo. Assim como a biscate da Kika fez em mim, barba, cabelo e bigode. Coitada, tomara que o desgraçado não descubra que a fiz me contar onde ficava o cofre.
Nunca me achariam ali. Era o que eu pensava até ver três caras de terno e chapéu atravessarem a rua com pistolas na mão...


(II)
Caminhos cruzados


Matar o chefão do tráfico foi o segundo maior erro da minha vida. O primeiro foi ter matado o Comandante Geral da Polícia, meu chefe. Quem disse que quem mata bandido é herói? Eu pensava que fosse herói, que estaria limpando a carniça que impregnava a corporação desde que aquele baixinho corrupto, sócio do narcotraficante Butch, assumiu a chefia, por indicação do próprio Governador. Meus vinte anos de dedicação, de prisões, de grandes operações, de tiroteios cinematográficos, de medalhas de bravura, foram simplesmente apagados com uma borracha, como se nunca tivesse existido. É irônico pensar que um homem que tinha o dever acima de tudo, estivesse agora na condição de bandido mais procurado do país.
Confesso que foi por impulso que matei os dois, um momento de extrema revolta. Butch havia se encontrado com aquela cópia reduzida do Sadam, meu chefe, na casa dele para tratar da captura do braço direito de Butch, que ao que parece, havia comido a mulher dele e lhe roubado uma grande quantia em dinheiro. Butch havia oferecido o dobro daquela quantia como recompensa pela cabeça do traidor. Foi aí que eu entrei na jogada. O comandante mandou me buscar em casa, disse que tinha uma missão especial para mim, que era o melhor homem da corporação e toda essa balela chantagista e cínica. Quando me falou dos detalhes sórdidos da operação, não tive dúvidas, esfacelei aquela cara gordurosa do Butch com três tiros, e, para não estragar o funeral do chefe, dei os outros três tiros no peito dele. Sabia que seria enterrado como herói.
Com toda a polícia, a imprensa e os caçadores clandestinos de recompensa no meu rastro, a solução foi me esconder aqui nesse pulgueiro paraguaio, o San Rafael Hotel, localizado a duas quadras da Pan American Highway, logo depois da ponte da Amizade. Amava minha profissão, mas com aquele dinheiro todo, que não fui idiota em deixar com os cadáveres, seria fácil mudar de vida. Tinha apenas que esperar a poeira baixar. Enquanto isso curtiria um pouco aquelas vadias paraguaias, disfarçado de turista.
Quando avistei aqueles três homens de terno e com pistolas nas mãos, sabia que eram homens do governo e que o alvo era eu. A Galeria Zuni seria minha salvação, não fosse aquele idiota com camisa Hawaii-cheguei trancando meu caminho. Adelante hijo da puta, foi o que disse enquanto empurrava aquele estorvo para dentro da galeria.


(III)
A mala:


- Trouxe a mala?
- Que mala?
- Como que mala?! A mala para carregarmos a encomenda!
- Ah! Não, eu trouxe esta sacola!
- Uma sacola de plástico?!
- Sim, era o que eu tinha em casa...
- E como vamos entregar a papelada pro Buch numa sacola de plástico?! Deixa de ser imbecil e vá comprar uma mala!
- Que tipo de mala?
- Uma que não chame a atenção! Agora vá e não demore, não podemos nos atrasar!
Imbecil filho da puta! Vou sumir com o dinheiro e deixar esse capiau pros leões! Que se foda! Eu não conseguia tirar os olhos da encomenda, não era à toa que todos estavam atrás daquilo. Filho da puta! Se nos pegam estamos fodidos, se não entregarmos no prazo estamos mortos! Bela situação! E o idiota aparece com esta sacola de plástico! Ah! Lá vem ele...
- Aqui patrão! Comprei a mala!
- Ainda bem! Estamos em cima da hora! Deixe-me ver!
- Aqui ó!
- Mas que porcaria é essa! Uma mala branca! Só um perfeito idiota compraria uma mala branca!
- Mas o branco é uma cor neutra...
- Tá! Não temos tempo! Pegue a encomenda!
- Puxa vida! Papéis?!
- Cale a boca é me dê aqui! Uma mala branca! Muito discreta não!?
- Mas é uma cor neutra...
Saímos do hotel de forma apressada. Eu tinha certeza que estávamos sendo seguidos. A notícia já havia se espalhado, todos queriam o suposto dinheiro que estávamos carregando, e aquela maldita mala branca, brilhando como um diamante de quinhentos quilates, não ajudava em nada. Fiquei no lado de dentro da calçada e deixei o gordo pelo lado de fora, servindo como escudo.
- Temos que pegar um taxi! Assim que passar um você chama!
- Tá certo patrão!
- Não sou seu patrão!
Eu estava paranóico. Em cada carro que passava, cada pessoa que nos olhava eu pressentia o ataque. E o olhar era inevitável: todo mundo que passava olhava para aquela lustrosa mala de couro branco, sem nenhum detalhe, apenas aquele branco que podia ser visto a uns dois quilômetros de distância, como um farol sinalizando para todos que eu estava passando por ali, dando sopa com a preciosa encomenda.
- Lá! Lá vem um!
- Está ocupado chefe!
- Escute aqui gordo: eu não sou seu chefe, patrão, ou seja lá o que for. Você é só um estorvo que me empurraram para estragar o meu dia, entendeu?!
- Sim chefe!
O pior de tudo é que ele não fazia isso para me irritar. O sujeito era burro mesmo. Ele não tinha idéia da situação medonha em que nós estávamos, e eu não iria perder tempo tentando lhe explicar.
- Dê olho nos taxis, hein?
- Pode deixar!
Eu queria entregar logo a encomenda, dar uma rasteira no gordo e me mandar pro Paraguai. O plano era perfeito. Atravessamos a quadra a pé. Ficar andando com aquela mala era tudo o que eu não queria. Mas ficar parado aguardando um taxi também não era uma boa idéia.
- Deveríamos ter chamado um taxi lá do hotel!
- Pois é! Eu nem cheguei a pensar nisso, patrão!
- Posso apostar que não pensou mesmo!
Chegamos na esquina da Marques. Cobri a mala branca com o meu casaco. Acendi um cigarro e esperei um pouco, em silêncio. O gordo esperava com as mãos na cintura. Vimos um grande Landau preto parar do outro lado da rua.
- São eles, gordo! Vai lá e entrega a mala!
- Sim chefe!
Gordo foi e eu saí fora. Dobrei a esquina e entre no primeiro ônibus que passou. Antes de subir escutei os gritos do gordo, seguidos de cinco estampidos. Foda-se! Meu plano deu certo, o dinheiro grudado no corpo com fita adesiva estava coçando, mas logo estarei no Paraguai, o bueiro do mundo, ninguém me achará!

7 comentários:

Wander Veroni disse...

Olá! A história está muito bem escrita, parabéns. VC faz uma descrição cinematográfica das cenas e dos perfis dos personagens. Isso é muito bacana!

Abraço

Thiago Toscani disse...

"Putedo desgraçado. Aproveitam aqueles cochilos pós-foda para te levar a carteira embora. Peguei duas fazendo isso. Coitadas. O aprendizado pela dor." HAHAHAHA ri demais!

Cara,
se tem uma coisa que me deixa muito preso à uma história é a capacidade que o texto tem em me fazer visualizar cada frase, cada cena. Parabéns, você realmente consegue! Escreve MUITO bem! Sou teu fã já! hehe
Abraço e apareça lá no meu sempre que quiser!
Thiago Toscani
www.ttoscani.blogspot.com

Doutor Walzemhut disse...

Thiago,méritos a Roberto e Zé Dylan Walker!

ibere disse...

Parabens, a historia é interessante e a narrativa em tempos diferentes nos rememete a cortes cinematograficos, esse vai e vem no tempo, lembra muito alguns filmes estilo tarantino... mas poderia bem ser um livro, daqeueles que devoramos em uma noite, vamos engolindo palavras para ver oque acontece depois, nos identificamos com o antiheroi pois ocnhecemos muitos Butchs QUE vivem da idolatria da imprensa e do dinehiro de bandidos! Lmebra um pouco as historias de patricia mello, achoque voce deveria escrever um livro... parabens
Ibere

Satiko disse...

Uaauuu mto boa história !!
"-Uma sacola de plástico?!
- Sim, era o que eu tinha em casa.."otimo otimo haha bjo bjo!
da uma conferia no meu }}
http://ga-ro-ta.blogspot.com/

Liliane Nunes disse...

Nossa, muito bom! Gostei mesmo!

Parabéns pela história e pela criatividade.

;)

Lina disse...

Nossa, que tensão!
Deveria ter migrado p/ o Brasil, se enfiado em Tocantins... nunca o encontrariam ali...

"ante-ala do inferno", ainda tpo com isso na cabeça...

Adorei teu texto.

gritosquenaodei.blogspot.com